perdi-me num momento qualquer quando virei a página de um livro, não sei dizer qual foi maior a dor - voltar a ver-te ou dizer-te que estou cansado. há mais de uma semana que vou definhando pelas paredes da casa, invento-te num gesto doméstico, murmuro o teu sorriso que tanto teimavas em esboçar.

tenho vontade de partir, não sei, para qualquer lugar. o lugar onde só exista mar, onde invariavelmente estarás a remendar o teu corpo. pensar-te, neste momento, seria enlouquecer, seria manter o eterno estado de embraguiez, onde, todas manhãs, ia descobrindo o teu lento balbuciar, entre a almofada e os lençóis, e as pálpebras abriam esse olhar nacarado que marcava o início de todos os dias.

o eterno odor desse quarto onde crescemos, faz-me viajar às noites de primavera em que adormecíamos no silêncio da paisagem. por vezes o cão ladrava e ouvíamos as ovelhas ao longe. mas estávamos a caminhar para o precipício - cada um para o seu. passaram tantos meses depois do nosso adeus, mas teimamos em não partir. pergunto hoje, partir para onde e teimar para quê?

talvez te encontre agora, no ciciar de um cigarro,
no copo de vinho quase vazio ou na página de um livro que não vou abrir. recolho-me mais um pouco nesta luz suave que vai invadindo o meu rosto. amo-te.





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