viajo entre esta geografia, a saudade e um pedaço do teu olhar. perdoa-me por não saber o que fazer, mas a saudade também é uma vertigem do meu próprio corpo. este sonambulismo faz-me rasgar os campos que percorro, todos os dias, e no mapa das minhas mãos assinalo os lugares por onde passei. viajo para matar a saudade.
synkro - departure (fonte: youtube.com)
é de pedra o silêncio pousado entre nós,
não sei onde começaram as palavras de morte
- talvez tenham sido no dobrar da noite,
em que me disseste que o amor é a apenas uma palavra
e um incêndio de sal, pousou, prostrado
entre o meu corpo e o teu
até um dia, o mar, se despojar de nós
ollie macfarlane - shadows (fonte: youtube.com)
não sei onde começaram as palavras de morte
- talvez tenham sido no dobrar da noite,
em que me disseste que o amor é a apenas uma palavra
e um incêndio de sal, pousou, prostrado
entre o meu corpo e o teu
até um dia, o mar, se despojar de nós
ollie macfarlane - shadows (fonte: youtube.com)
tenho vontade de partir, não sei, para qualquer lugar. o lugar onde só exista mar, onde invariavelmente estarás a remendar o teu corpo. pensar-te, neste momento, seria enlouquecer, seria manter o eterno estado de embraguiez, onde, todas manhãs, ia descobrindo o teu lento balbuciar, entre a almofada e os lençóis, e as pálpebras abriam esse olhar nacarado que marcava o início de todos os dias.
o eterno odor desse quarto onde crescemos, faz-me viajar às noites de primavera em que adormecíamos no silêncio da paisagem. por vezes o cão ladrava e ouvíamos as ovelhas ao longe. mas estávamos a caminhar para o precipício - cada um para o seu. passaram tantos meses depois do nosso adeus, mas teimamos em não partir. pergunto hoje, partir para onde e teimar para quê?
talvez te encontre agora, no ciciar de um cigarro,
no copo de vinho quase vazio ou na página de um livro que não vou abrir. recolho-me mais um pouco nesta luz suave que vai invadindo o meu rosto. amo-te.
estou cansado do adeus que ainda não chegou, na vontade de partir no corpo do eterno viajante. são apenas murmúrios o que me deste em troca, mesmo que ainda tenhas balbuciado na palavra de um qualquer esquecimento. já não sei o que te dizer.
fico parado ao cair da noite, como se fosse o último dia. o dia de te ver novamente abraçada por essas vertigens que me falas, horas a fio. desejar o corpo, o corpo marinho, marulhado pela tua existência de sal. habitas esse lado que anoitece o dia, a memória de te perder invadiu-me nessa linha de mar que juntos ainda habitamos, ou teimamos em ainda habitar.
não sei que lado do olhar te posso dar ou deixar. quero agora mostrar-te a paisagem coberta pela intensa neblina marítima, aqui nestes campos que nos limitam o horizonte.
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