o corpo que habito
acorda a precisar do teu,
a pele em que eu vivo
diz-me que precisa da tua,
as mãos
que são minhas
querem passar pelas tuas
os olhos que acordam,
estremunhados,
querem olhar para os teus.

e eu quero morder-te,
agarrar-te
e possuir-te
com o meu corpo,
com a minha pele,
com as minhas mãos
e com os meus olhos.


toquei no mar com as minhas mãos
senti o frio a percorrer-me as veias e senti-me feliz
como se fosse tudo pela primeira vez.

o olhar perdeu-se na paisagem carregada de sal
e, pela primeira vez, voltei a olhar.


há três dias que espero ouvir a tua voz
há três noites que o meu corpo se estende entre a tua ausência e a minha

há três horas que me pergunto:
a que distância deixámos ficar o silêncio entre nós?

espera,
porque não voltamos atrás?

não.
voltaste as costas e desapareceste,
numa noite de outono.

fiquei em silêncio.
e não me lembro que silêncio me deste em troca.


rené aubry - fil de verre (fonte: youtube.com)

são longos os minutos e eterno o momento
em que tocámos nas nossas mãos.

com as pontas dos nossos dedos,
o corpo entrelaçou-se,
um no noutro,
em silêncio.
lentamente.

e lentamente as mãos,
inteiras,
tocaram-se.

a pele rumorejava uma na outra.
o corpo estremecia nas nossas mãos
e nas nossas mãos o mundo parava.

ficamos estáticos,
no momento em que o teu olhar de mar parou no meu.

e beijamo-nos.

hoje,
esses teus dedos, delgados, ainda pousam,
etéreos,
na memória das minhas mãos.

hoje,
o sabor da tua boca,
meu fruto do mar,
estende-se, prostrado,
pelo meu corpo. inteiro.


viajo entre esta geografia, a saudade e um pedaço do teu olhar. perdoa-me por não saber o que fazer, mas a saudade também é uma vertigem do meu próprio corpo. este sonambulismo faz-me rasgar os campos que percorro, todos os dias, e no mapa das minhas mãos assinalo os lugares por onde passei. viajo para matar a saudade.


synkro - departure (fonte: youtube.com)
é de pedra o silêncio pousado entre nós,
não sei onde começaram as palavras de morte
- talvez tenham sido no dobrar da noite,
em que me disseste que o amor é a apenas uma palavra
e um incêndio de sal, pousou, prostrado
entre o meu corpo e o teu
até um dia, o mar, se despojar de nós


ollie macfarlane - shadows (fonte: youtube.com)
perdi-me num momento qualquer quando virei a página de um livro, não sei dizer qual foi maior a dor - voltar a ver-te ou dizer-te que estou cansado. há mais de uma semana que vou definhando pelas paredes da casa, invento-te num gesto doméstico, murmuro o teu sorriso que tanto teimavas em esboçar.

tenho vontade de partir, não sei, para qualquer lugar. o lugar onde só exista mar, onde invariavelmente estarás a remendar o teu corpo. pensar-te, neste momento, seria enlouquecer, seria manter o eterno estado de embraguiez, onde, todas manhãs, ia descobrindo o teu lento balbuciar, entre a almofada e os lençóis, e as pálpebras abriam esse olhar nacarado que marcava o início de todos os dias.

o eterno odor desse quarto onde crescemos, faz-me viajar às noites de primavera em que adormecíamos no silêncio da paisagem. por vezes o cão ladrava e ouvíamos as ovelhas ao longe. mas estávamos a caminhar para o precipício - cada um para o seu. passaram tantos meses depois do nosso adeus, mas teimamos em não partir. pergunto hoje, partir para onde e teimar para quê?

talvez te encontre agora, no ciciar de um cigarro,
no copo de vinho quase vazio ou na página de um livro que não vou abrir. recolho-me mais um pouco nesta luz suave que vai invadindo o meu rosto. amo-te.





estou cansado do adeus que ainda não chegou, na vontade de partir no corpo do eterno viajante. são apenas murmúrios o que me deste em troca, mesmo que ainda tenhas balbuciado na palavra de um qualquer esquecimento. já não sei o que te dizer.

fico parado ao cair da noite, como se fosse o último dia. o dia de te ver novamente abraçada por essas vertigens que me falas, horas a fio. desejar o corpo, o corpo marinho, marulhado pela tua existência de sal. habitas esse lado que anoitece o dia, a memória de te perder invadiu-me nessa linha de mar que juntos ainda habitamos, ou teimamos em ainda habitar.

não sei que lado do olhar te posso dar ou deixar. quero agora mostrar-te a paisagem coberta pela intensa neblina marítima, aqui nestes campos que nos limitam o horizonte.